Francisco Dalcol

ENTRE TEMPOS E ESPAÇOS

Há algumas indicações de caminhos a percorrer nas obras de Fernanda Valadares em "Depois:", exposição que chega aos últimos dias de sua temporada na Galeria Mamute em Porto Alegre. Começa nos espaços entre os cubos de metal colocados ao chão, segue com a linha que sugere transpassar pintura a pintura ao longo das paredes como um extenso e distante horizonte, e fecha no título desta série ali reunida: "Migrações".

 

Mas como um atravessamento a tudo isso ainda há um trajeto anterior, a chave poética do projeto. São os mais de 1 mil quilômetros entre Porto Alegre e São Paulo que Fernanda, uma paulista radicada no Rio Grande do Sul, percorre com certa frequência de carro, experimentando a paisagem em sua distância e duração.

 

O desejo de estabelecer relações com o tempo e o espaço de forma a rebater isso no trabalho é uma constante em sua produção, marcada por uma pintura contemporânea de carga conceitual. Isso fica claro desde as séries que Fernanda realizou a partir de 2007, ano em que se mudou para Porto Alegre, com seus ambientes silenciosos compostos por pisos, paredes, escadas, portas, janelas, colunas e passagens. São construções de planos sempre vazios e sem detalhes, que fazem dos elementos da arquitetura uma espécie de tema figurativo constante.

 

Há nesses trabalhos uma experiência com a pintura que parece interessada em estabelecer um jogo com as leis da perspectiva, mas sem a perda de seu efeito ilusório tridimensional, que, ao contrário, é realçado em um exercício de quase-abstração. Contudo, as linhas permanecem lá, demarcando os planos no interior do quadro. Daí um "estar entre" a figura e uma tensão abstracionista.

 

Junto a esse procedimento intelectual, há, claro, a matéria, trabalhada na prática ritualística da pintura encáustica que condiciona o trabalho à duração desse processo ancestral. Fernanda usa quase sempre como suporte o compensado naval, que em suas obras muitas vezes deixa a ver pequenos fragmentos da superfície de madeira nas formas de rasgos, fissuras e incisões.

 

– A escolha de materiais que uso e a própria técnica de pintura encáustica são bem importantes e direcionam muito do meu trabalho. A encáustica consiste em cera, pigmento, calor e tempo de feitura. É aplicada ainda quente, pincelada a pincelada, e depois é novamente submetida a uma fonte de calor. Assim, o trabalho vai-se construindo, em camadas – conta a artista, que já escreveu sobre a técnica a qual define como um "processo de estar no presente".

 

Nos trabalhos que apresenta agora na Mamute, Fernanda segue seu interesse de estabelecer relações entre tempo e o espaço, mas desdobrando esse pensamento com uma ideia de "presente deslocado". "Migrações" é baseada na ressonância interior em sua experiência pessoal de estar em deslocamento, rememorando o que passou e projetando o que está por vir. Isso envolve tanto o trajeto percorrido entre POA-SP quanto os trânsitos que a artista estabelece quando está em cada cidade, sejam esses trajetos físicos ou mentais.

 

As linhas que formam os referidos rasgos na pintura são, em sua gênese, uma interpretação dos horizontes das paisagens que Fernanda observa ao longo das viagens entre POA-SP. Trajeto no qual, ao percorrer, a artista se vê entre lugares e tempos, na passagem de um passado a um futuro, na condição de quem se percebe em um vazio, como um intervalo de um "não lugar" e de "um não tempo" a ser vivido.

 

– Há tempo de feitura, tempo de duração da cera, tempo de duração da gente, tempos que gostaríamos de não ter que gastar… Tenho sempre a questão do "estar no presente" versus divagar, passear pelo passado, por um hipotético futuro. A divagação, que é temporal, como memória do passado, é também espacial. A memória não considera o espaço percorrido, e só considera o tempo. Então, se quando estou em uma das duas cidades, internamente fico transitando entre elas, quando estou realmente em trânsito entre elas, onde estou? No presente ou em uma das duas? Ou num vazio, um lugar algum? O estar no presente, na estrada, se mostrou estar no vazio, um vazio amplo. Esse presente amplo me interessa – comenta Fernanda.

 

Esse sentido de presente tanto interessa à artista que ela realizou outro trabalho, "Gravidade", que dá título aos cinco cubos de aço oxidado instalados na exposição "Depois". No interior deles, há pinturas que emulam "as paisagens" das pinturas de "Migrações" apresentadas na sala da galeria, ambiente visto pela artista também na forma de um cubo. E, assim, ela faz como se um trabalho coubesse dentro do outro, "Migrações" e "Gravidade", pinturas e cubos, como uma metalinguagem apresentada em forma de instalação. Um dos cubos, que se apresenta totalmente aberto, assim ficou pelo impacto causado no chão depois de ter sido arremessado do céu.

 

– Se "Migração" é esse percurso horizontal, como seria se ele fosse vertical? Haveria a gravidade. E como seria "estar no presente" nesse percurso vertical? Bom, para descobrir eu tive que fazer a experiência, arremessei o cubo de 500 pés. O que entendi é que o fim do percurso é inexorável, imprime uma transformação irreversível, e é muito rápido.

 

Ao encaminhar sua produção aliando o tempo interior de um pensamento existencial ao vagar da prática arcaica da pintura encáustica, Fernanda sobrepõe espaços e temporalidades que apontam muitos caminhos, percorridos ou a percorrer, em trabalhos que tiram exatamente desse entrecruzamento sua força contemporânea.

 

DEPOIS

> Mostra de pinturas da artista Fernanda Valadares. Galeria Mamute (Caldas Júnior, 375), fone: (51) 3286-2615. De segunda a sexta, das 14h às 18h. Até esta quinta-feira (30/4).

Por: Francisco Dalcol para o Caderno Entretenimento de Zero Hora (Rio Grande do Sul) - 29/04/2015 - 10h18min